// Sumário

A versão mais cara do novo Roadster da Tesla tem tanques de combustível, mas não há gasolina dentro deles. Eles guardam gás comprimido: dois vasos que somam 600 litros e alimentam dez bocais capazes de lançar o carro ao ar. Em 15 de outubro de 2026, no campo de testes da SpaceX, no Texas, o Roadster subiu por uma parede curva até ficar quase de cabeça para baixo, saltou sobre uma fileira de outros Teslas e pousou com suavidade numa nuvem de condensação. Um manequim estava ao volante: quem pilotava era a automação. A Tesla chama essa versão de “air ready”, mas não diz por quanto tempo ela consegue ficar longe do chão com um tanque. Fizemos a conta: cerca de oito segundos, e dez e meio no caso mais generoso. Reabastecer esse tanque hoje leva de seis a sete horas, ou seja, uns 45 minutos no compressor para cada segundo no ar.

O que vai no porta-malas no lugar do combustível

O novo Roadster vem em três versões. A básica, Performance, não tem propulsores e fica colada à pista com ventiladores que sugam o ar debaixo do assoalho. A Thrust acrescenta bocais traseiros para acelerar e um tanque de 200 litros. Só a Rocket voa: um monoposto, só por convite, com bocais em todo o perímetro, segundo o TechCrunch . Ela soma mais 400 litros ao tanque da Thrust, chegando a 600 no total. Musk diz que a produção começa em 2028.

No palco, quem explicou o carro foi Lars Moravy, vice-presidente de engenharia de veículos da Tesla. Ele deu o volume dos tanques e a massa do gás dentro deles, e disse que os propulsores traseiros, segundo a empresa , poderiam sustentar oito toneladas contra a gravidade. Moravy chamou o peso do próprio carro de estimativa: os números finais ainda não saíram.

// O que sabemos

600 Lvolume somado dos dois tanques da versão Rocket
≈250 kgde gás nos tanques cheios, segundo Lars Moravy
80+ kNempuxo traseiro declarado pela Tesla
<1.700 kgpeso preliminar do carro

O gás ora é chamado de ar, ora de nitrogênio, e a pressão aparece como 380 ou 690 atmosferas. Para a conta, isso quase não importa: o ar é 80% nitrogênio, e vamos testar as duas pressões.

Com que velocidade o gás frio sai de um bocal

Os bocais do Roadster não queimam nada. Pôr no carro um combustível que precisa queimar “simplesmente não parece certo”, explicou Moravy em entrevista à Hagerty. O gás sai do tanque a toda, se expande e empurra o carro no sentido contrário, como um balão que você solta. Os engenheiros chamam isso de propulsor de gás frio. Satélites os usam quando precisam girar com delicadeza, não para ganhar velocidade.

A velocidade de escape do nitrogênio frio sai da termodinâmica do ensino médio. O gás à temperatura ambiente, comprimido a 380 a 690 atmosferas e expandido até a pressão normal num bocal ideal, chega a cerca de 700 metros por segundo. Isso dá um impulso específico de uns 72 segundos, o limite superior para o nitrogênio. Um bocal real vai pior, mas sejamos generosos.

Dois segundos em empuxo total

Comecemos pelo modo mais vistoso. A 80 kN e 700 m/s, os bocais expelem cerca de 113 kg de gás por segundo. Ou seja, 250 kg acabam em uns dois segundos. Isso basta para o número exibido em 15 de outubro: a Tesla diz que o carro saltou 27 pés, mais de 8 metros, informa a NBC News , e girou em torno do próprio eixo no ar.

Pairar dependeria de outros bocais. Os 80 kN vêm dos traseiros, que empurram o carro para a frente, enquanto os bocais dos cantos apontam para baixo, e a Tesla não informou o empuxo deles. Sabemos, porém, o que precisam entregar: um carro de 1,7 tonelada pressiona o chão com cerca de 16,7 kN, mais ou menos um quinto de 80.

Voltemos ao impulso específico. 72 segundos significa que um quilo de nitrogênio consegue se sustentar por 72 segundos. Um carro de 1.700 kg é quase sete vezes mais pesado que 250 kg de gás, então fica no ar umas sete vezes menos: cerca de 10,5 segundos.

Só que o gás no tanque não permanece à temperatura ambiente. Conforme a pressão cai, o nitrogênio restante se expande e esfria. Você já viu isso numa lata de ar comprimido para limpar teclado, que fica coberta de gelo. Gás mais frio sai mais devagar, e perto do fim a pressão já não acelera o jato como deveria. Com essa correção, o carro fica no ar por 8,3 segundos a 380 atmosferas e 8,5 a 690. A pressão quase não muda o resultado porque tomamos a massa de gás de Moravy. Se 690 atmosferas espremessem mais nitrogênio nos mesmos tanques, o voo seria mais longo, mas aí o número de 250 kg estaria errado.

Quarenta minutos de compressor por segundo no ar

Agora o outro lado. Moravy diz que encher todos os 600 litros leva hoje de seis a sete horas, e que a Tesla espera reduzir isso para meia hora.

Uma mangueira de reabastecimento longa para poucos segundos de voo
Uma mangueira de reabastecimento longa para poucos segundos de voo

Seis horas de reabastecimento para oito segundos e meio de voo dão pouco mais de 40 minutos de compressor para cada segundo fora do chão. Com sete horas, são cerca de 50.

A energia também não é pouca. Mesmo um compressor perfeito, sem perdas, gastaria de 36 a 39 kWh para comprimir 250 kg de nitrogênio, dependendo da pressão. Compressores reais esquentam e consomem mais. Para ter uma escala, a casa americana média comprou cerca de 30 kWh de eletricidade por dia em 2022. Um tanque para oito segundos de voo custa mais energia do que uma casa gasta em um dia.

O que não sabemos

A conta se apoia em suposições. A Tesla não divulgou a pressão de trabalho nem o gás exato. Os 1.700 kg provavelmente descrevem uma versão sem o tanque extra de 400 litros, e a Rocket pesa mais com ele. A velocidade de escape é generosa. Parte do gás vai para os bocais que mantêm o carro nivelado e o fazem girar. Cada uma dessas correções só encurta o voo.

A Tesla não informou o tempo de voo por tanque. Depois da primeira acrobacia, Elon Musk disse que o carro “não é necessariamente otimizado para segurança”, e a Tesla afirma que a Rocket não é homologada para vias públicas.

Saltar sobre um congestionamento também está fora de questão. Suponha que voar para a frente fosse de graça e o gás só precisasse manter o carro no ar. Oito segundos a 60 km/h cobrem cerca de 130 metros, meio quarteirão. O primeiro voo do Wright Flyer, em 17 de dezembro de 1903, durou 12 segundos. Um avião de madeira e tecido ficou mais tempo no ar há 123 anos do que um carro voador em 2026.