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Na madrugada de 2 de novembro de 2026, os freezers de um supermercado ICA Kvantum na pequena cidade sueca de Sjöbo começaram a esquentar. De manhã, a loja já avisava no Facebook que suas geladeiras e freezers tinham sido hackeados e programados para 50 °C (122 °F), e que a equipe estava jogando fora os produtos afetados. Na mesma noite, falhas parecidas atingiram dezenas de lojas em mais quatro países, informou a Associated Press.
Esta é a terceira onda. Em agosto, refrigeradores falharam do mesmo jeito em lojas de bases militares americanas, e o Pentágono agora trata o caso como um possível ataque cibernético. Em outubro, cerca de 700 supermercados foram atingidos na França. O mais estranho: ninguém sabotou o resfriamento. Os invasores ligaram algo que todo freezer expositor já tem: um aquecedor embutido. E, um mês antes, na maioria dos painéis franceses de controle de refrigeração acessíveis pela internet, bastava um calendário para descobrir a senha de administrador.
Por que um freezer tem aquecedor
O ar de uma loja é úmido. Quando ele encosta nas serpentinas geladas dentro de um expositor, a umidade vira uma camada de gelo sobre elas, e essa camada funciona como um casaco de inverno: quanto mais grossa, pior as serpentinas liberam o frio. Por isso, um freezer comercial se descongela sozinho, em horários programados. Um aquecedor liga, o gelo derrete, a água escorre e o expositor volta a congelar. Normalmente isso leva umas duas horas por dia, segundo o site sueco de negócios Dagens PS.
Os invasores mandaram os controladores degelar sem parar e subiram para 50 °C a temperatura programada do aquecedor. Em algumas lojas francesas, segundo o Le Monde, eles também esticaram cada ciclo de degelo de uma hora para oito. Assim, os alarmes demoravam a disparar e o estrago tinha tempo de se espalhar.
Onde havia alguém de olho, o ataque foi descoberto depressa. Na Estônia, informou a AP, a empresa de manutenção Kitman Coldtech encontrou invasores dentro de um computador que gerenciava a refrigeração de um cliente. Eles já tinham levado a temperatura aos mesmos 50 °C. O CEO Jann Mutso disse que tudo se resolveu em minutos, sem danos significativos.
Os 50 °C estamparam todas as manchetes, mas esse número é a regulagem do aquecedor, não a temperatura nas prateleiras. O visor de um freezer de sorvete francês marcava 26 °C (79 °F), relatou o Dagens PS. Para o sorvete, tanto fazia. Alimentos congelados devem ficar a −18 °C (0 °F) ou menos; subidas breves até −15 °C são toleradas, e acima disso o produto não pode ser vendido. Então as lojas jogaram tudo fora. “Tivemos que descartar todos os nossos produtos frescos (açougue incluído)”, escreveu uma loja Intermarché em Mûr-de-Bretagne, na Bretanha.

Três ondas desde agosto
Os primeiros casos parecidos apareceram fora da Europa. No fim de agosto de 2026, a refrigeração falhou em pelo menos seis lojas de bases militares americanas, apurou a Reuters. Em 26 de agosto, o Fort Huachuca, no Arizona, anunciou que um refrigerador tinha entrado sozinho no modo de degelo e aquecido os alimentos até estragarem. A Reuters não conseguiu descobrir de quem era o equipamento usado nas bases.
Na noite de 11 para 12 de outubro, a mesma coisa aconteceu na França, em centenas de lojas ao mesmo tempo. O ministro da Economia, Roland Lescure, disse ao parlamento que cerca de 700 dos 10.000 supermercados do país foram afetados. “É inaceitável”, escreveu o diretor-executivo da Coopérative U, Dominique Schelcher. Dois supermercados em Haguenau, na Alsácia, perderam juntos € 270.000 (cerca de US$ 300.000) em alimentos, calculou o Dagens PS. O Intermarché avisou que o seguro não cobre incidentes desse tipo em suas lojas. A promotoria de Paris investiga o ataque, incluindo os prejuízos e relatos de incêndios em algumas lojas.
Num alerta de emergência, a agência de cibersegurança da França apontou a empresa dinamarquesa Danfoss como fabricante dos equipamentos. Um dia depois, acrescentou mais dois fabricantes e alertou que os ataques provavelmente continuavam. Três semanas depois, ficou claro que a agência tinha razão: em 2 de novembro, várias dezenas de lojas Delhaize, Carrefour e SuperValu na Bélgica, em Luxemburgo e na Irlanda foram atingidas. À noite, as lojas irlandesas já estavam reabastecendo as geladeiras.
Uma senha tirada do calendário
O Danfoss AK-SM 800A é, na prática, o painel central da refrigeração de uma loja. Numa página web, os funcionários acompanham cada circuito, definem limites de temperatura, mudam os horários de degelo e ajustam configurações a distância. As unidades de refrigeração costumavam ficar isoladas da internet; agora são ligadas à rede por causa dos sensores e do monitoramento remoto, contou à AFP o consultor de cibersegurança Antoine Hautin. Uma empresa de manutenção consegue vigiar os expositores de todos os clientes sem sair do próprio escritório.
Pesquisadores da Claroty, empresa de cibersegurança industrial, encontraram nesse painel um “código do dia” escondido: uma senha de serviço que o aparelho calcula todo dia a partir apenas da data atual. Quem reproduz esse cálculo entra como administrador sem saber a senha de verdade. Os pesquisadores relataram a falha, e em março de 2025 a Danfoss a corrigiu com o firmware 4.2. Amir Zaltzman, da Claroty, publicou uma análise detalhada em 9 de agosto de 2026.

Os donos tiveram um ano e meio para atualizar. Poucos se mexeram. Em 11 de outubro, véspera do ataque, o buscador de dispositivos Censys contou 1.825 desses painéis na França acessíveis direto pela internet. Desses, 1.158 rodavam firmware anterior ao 4.2, ou seja, a senha do calendário ainda funcionava. Ninguém sabe se os invasores usaram justamente essa falha: nem a Danfoss nem as autoridades francesas revelaram o ponto de entrada.
Os modelos mais antigos estão em situação pior. A maioria das unidades afetadas, segundo a Danfoss, eram sistemas AK-SM 800 e AK-SC 355. A empresa parou de dar suporte ao primeiro em maio de 2021 e descontinuou o segundo em 2016. Nenhum dos dois recebe atualização alguma, e as lojas demoram a trocá-los: os sistemas duram anos e custam caro.
Quais falhas foram encontradas nos painéis
A agência francesa listou como alvos os controladores Danfoss AK-SM e AK-SC, além dos sistemas Copeland XWEB e Dixell XWEB. Os pesquisadores da Claroty descreveram três falhas no Danfoss AK-SM 800A. A CVE-2025-41450 permite entrar como administrador com uma senha derivada da data. A CVE-2025-41451 permite injetar comandos de sistema nas configurações de alerta por e-mail e executá-los no aparelho. A CVE-2025-41452 permite trocar as configurações do servidor web e derrubar a interface de gerenciamento repetidas vezes. Encadeadas, as duas primeiras dão controle remoto total do painel. As duas últimas foram corrigidas no firmware 4.3.1. Os mesmos pesquisadores encontraram 23 falhas nos painéis XWEB Pro da Copeland, 21 delas de alta gravidade; o firmware 1.13 as corrigiu.
Ninguém pediu resgate
Normalmente, um ataque hacker rende dinheiro: o invasor rouba ou criptografa dados e cobra para devolvê-los. Aqui nada foi roubado, nenhum resgate foi pedido e ninguém assumiu a autoria. Para um ataque desse tamanho, isso é incomum, observou Christopher Whyte, da Virginia Commonwealth University. Executá-lo, segundo ele, “não é tão difícil”. Por que alguém faria isso, ainda ninguém sabe.
O truque não é totalmente novo. A Danfoss disse à Reuters que, já em 2022, invasores usaram seus controladores desatualizados para atacar supermercados na Rússia e em Israel. A novidade é a escala: centenas de lojas numa só noite e, agora, vários países. John Hultquist, analista-chefe do Google Threat Intelligence Group, resumiu assim: “O complexo sistema que leva comida à nossa mesa é frágil, mas muitas vezes não recebe a atenção que merece.”
Desconectados, não corrigidos
Depois do ataque de outubro, os donos correram contra o tempo. Em três dias, o número de controladores franceses visíveis na internet caiu de 1.825 para 537, uma queda de 71%. Mas a queda foi igual entre aparelhos atualizados e desatualizados. Ou seja, a maioria dos painéis foi simplesmente tirada do ar, com o firmware intocado. A Censys diz que essa provavelmente foi a melhor escolha: não há motivo para esses aparelhos ficarem expostos direto à internet. A agência francesa concorda e recomenda restabelecer o acesso remoto apenas por uma VPN segura.
Um número mostra como é raro esses painéis serem atualizados. Em 11 de outubro, a Censys encontrou o firmware mais recente da Danfoss, a versão 5.3.2, em 27 dos quase 3.000 painéis visíveis na internet no mundo todo, menos de um por cento. Ninguém revelou o ponto de entrada, ninguém sabe o motivo, e novembro mostrou que os ataques não pararam. O tamanho da próxima onda depende de quantos desses painéis ainda estão expostos à internet.







