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Quarenta e oito segundos. Esse era o intervalo entre um drone e outro sobre a rua de Cristina Boone, em Baton Rouge, na Louisiana, quando ela saiu de casa num sábado de manhã, entre 9h e 10h, e cronometrou. Os drones levavam pedidos da Amazon de um armazém a pouco mais de 3 quilômetros (2 milhas) dali. O que mais incomoda as pessoas, contou à IEEE Spectrum o companheiro dela, Blake Fugler, é o zumbido agudo das hélices, como se alguém passasse horas com uma roçadeira ligada.

Pelas contas da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA), esse barulho é insignificante. Mesmo com 500 entregas por dia passando sobre um único ponto, na ida e na volta, ele fica abaixo do limite da FAA. As contas são honestas e seguem o manual. O problema é o próprio manual: a fórmula tira a média do som ao longo de um dia inteiro, enquanto quem mora embaixo ouve cada passagem. Quando a entrega por drone era novidade em um ou dois subúrbios, quase ninguém ligava para essa diferença. Agora Amazon, Wing e Zipline estão chegando a centenas de cidades, e a diferença já rende votações em assembleias municipais e processos na Justiça.

Os gaviões foram os primeiros a ir embora

A Amazon começou a operar seus drones MK30 a partir de uma base nos arredores de Baton Rouge em agosto de 2026. No começo, eles voavam alto. Em poucas semanas, já eram mais numerosos e voavam mais baixo. Rick e Marcia LeCompte passaram anos observando gaviões-de-cooper pousados no liquidâmbar do quintal. Desde o início de setembro as aves sumiram, e Marcia acredita que os drones as espantaram. O casal já pensou seriamente em se mudar.

O barulho não era a única queixa. Drones sobrevoavam parquinhos, escolas e até um cemitério. Um deles fez um pouso forçado no canteiro central de uma rodovia, e todos levam câmeras. Um vereador diz que, depois da onda de reclamações, a Amazon mudou a rota de 70% dos voos. Ninguém disse para onde. A IEEE Spectrum lembra que drones não podem voar sobre rodovias, então o mais provável é que os voos tenham ido para outras ruas residenciais. No fim de outubro, Marcia LeCompte ainda via “dois ou três por dia” sobre a casa. Numa ida ao banco, ela contou oito em 20 minutos.

Como um zumbido vira silêncio no papel

Para abrir uma base de drones, a Amazon precisa da aprovação da FAA, e a FAA, antes, precisa de uma avaliação ambiental. A versão preliminar da avaliação para Baton Rouge saiu em junho de 2026. Ela permite até 1.000 entregas por dia, sete dias por semana, das 6h às 22h30, com cerca de cem delas no começo da manhã e no fim da noite. Há um detalhe que passa batido: sobre o quintal, o drone desce e solta a caixa de uns quatro metros (13 pés) de altura, por isso a Amazon só despacha por drone o que aguenta a queda.

O ponto mais barulhento, claro, é a própria base dos drones. Mas a FAA também modelou o pior cenário para um bairro: metade de todas as rotas cruzando um mesmo ponto, ou seja, 500 entregas por dia. Com ida e volta, são 1.000 voos reais, mais ou menos um por minuto da manhã até tarde da noite. Com a penalidade noturna, o cálculo conta 1.900 passagens “diurnas” por dia, e o total ainda fica abaixo do limite de 65 decibéis DNL.

O truque está na palavra “média”. Uma passagem de drone dura segundos, e o silêncio entre as passagens também conta. Mil zumbidos curtos se diluem em 24 horas e viram um número tranquilo, algo no meio do caminho. Quem está na varanda nunca ouve esse número. Ouve um zumbido, uma pausa e outro zumbido.

Uma média de 24 horas achata cada zumbido isolado numa linha lisa
Uma média de 24 horas achata cada zumbido isolado numa linha lisa

A própria linha dos 65 dB vem de pesquisas dos anos 1970. Pela curva antiga por trás dela, esse nível de ruído deixa cerca de um vizinho em cada oito muito incomodado. Em janeiro de 2021, a FAA publicou sua própria pesquisa com mais de 10.000 moradores dos arredores de 20 aeroportos americanos. Seis ou sete em cada dez estavam muito incomodados com os mesmos 65 dB. A linha continua valendo: é justamente com ela que mediram Baton Rouge em 2026.

De onde vêm as 1.900 passagens

Quinhentas entregas significam 1.000 voos, porque cada entrega é uma viagem de ida e outra de volta. Um décimo deles cai no começo da manhã e no fim da noite, e pelas regras do DNL cada um desses conta como dez voos diurnos. São 900 voos diurnos mais 100 voos noturnos vezes dez: 1.900.

Um som que ninguém reconhece e todo mundo ouve

A NASA começou a investigar ainda em 2017 por que o ruído de drones irrita mais do que os decibéis sugerem. Os engenheiros Andrew Christian e Randolph Cabell gravaram sobrevoos de vários drones pequenos e passagens de veículos comuns, de um carro compacto a uma van de entregas. Depois tocaram as gravações para 38 voluntários num laboratório de acústica e pediram que dessem nota ao incômodo de cada som. No mesmo nível de ruído, os drones irritavam claramente mais: em média, tanto quanto um veículo 5 a 6 dB mais alto. Curiosamente, quase nenhum voluntário percebeu que estava ouvindo drones. Ou seja, a reação não vinha de preconceito contra “drones espiões”. As pessoas simplesmente não gostavam do som.

Os voluntários explicaram o que os incomodava. Um som que parecia parado no ar irritava mais do que um que passava depressa, e saber que ele “já ia acabar” ajudava a aguentar. Ficar parado no ar é exatamente o que um drone de entrega faz sobre a sua casa: desce, paira, solta o pacote e sobe de novo. Os autores classificaram o teste como preliminar, mas foram diretos na conclusão: ele põe em xeque a aposta de que as pessoas vão perdoar o barulho dos drones desde que eles “não sejam mais altos” que uma entrega comum.

A Amazon descreve seus drones de outro jeito. Num texto sobre a expansão das entregas, a empresa diz que em voo eles soam mais ou menos como um ventilador de janela na velocidade mínima, e que uma entrega dura cerca de 30 segundos e é mais silenciosa que um caminhão de entregas parado com o motor ligado junto à calçada. Para uma única passagem, pode muito bem ser verdade. Para uma passagem a cada 48 segundos, ou 75 por hora, como na rua de Cristina Boone, o ventilador de janela já soa bem menos tranquilizador.

Canberra já passou por isso

Em 2018, a Wing, empresa de drones da Alphabet, controladora do Google, começou a entregar café, burritos e remédios por drone em Bonython, um subúrbio de Canberra, na Austrália. Os moradores logo formaram um grupo chamado Bonython Against Drones. Eles descreviam os drones pairando como “um aspirador de pó extremamente barulhento e estridente” e diziam ouvi-los dentro de casa, com as janelas de vidro duplo fechadas. O grupo reuniu mais de 1.000 assinaturas para encerrar o teste, e os vizinhos mais irritados ameaçaram derrubar os drones a tiros. Em 2019 o teste acabou. A Wing disse que ele sempre esteve previsto para durar só um ano.

Mesmo assim, a Wing aprendeu a lição. Reduziu a velocidade dos drones, mudou as rotas e instalou uma nova hélice, mais silenciosa e de som mais grave. Hoje faz reuniões e demonstrações para os moradores antes de começar a operar numa nova área. Em vez de algumas “rodovias de drones” fixas, usa uma rede de rotas: cada pedido voa pelo próprio caminho mais curto, para que o barulho não se acumule sobre uma só rua. Pelas contas da Wing, um sobrevoo fica em 43 dBA, abaixo dos sons cotidianos de um bairro. Mas esse número também é uma média: o “Leq” ao lado dele indica um nível médio ao longo do tempo, o mesmo truque da FAA em escala menor. A empresa não diz a que distância nem em que intervalo fez a medição.

David Ison trabalha no Departamento de Transportes do estado de Washington e escreve as diretrizes estaduais sobre onde os hubs de drones podem ficar. Ele alerta que não dá para tratar todos os drones como uma coisa só. O MK30 pesa quase 36 quilos (80 libras) e desce bem perto do quintal. O maior drone da Wing pesa menos de 11 quilos (25 libras), com carga e tudo. A Wing voa mais alto e, como a Zipline, baixa os pacotes presos a um cabo. As empresas partiram do princípio de que as pessoas iam receber de braços abertos uma entrega mais rápida, diz Ison, e conversar com o público ficou em segundo plano.

Uma cidade pode cercar o chão sob os drones, mas não o céu acima dele
Uma cidade pode cercar o chão sob os drones, mas não o céu acima dele

O céu é federal, o quintal é local

Nos EUA, o espaço aéreo é federal, e uma cidade não pode proibir drones de voar por cima dela. O que a cidade controla é o chão embaixo deles. Em outubro de 2026, os moradores de Westborough, em Massachusetts, votaram 510 a 13 a favor de uma lei municipal que regula tudo o que acontece em terra: preparação de drones comerciais, decolagens, pousos, carregamento e zonas de entrega. Cada infração custa uma multa de US$ 300. O estopim foi o plano da Amazon de montar um centro de entregas por drone no seu armazém local, com a mesma meta de até 1.000 entregas por dia. A lei ainda precisa ser aprovada pela procuradoria-geral do estado.

Os estados miram mais alto. Em 28 de setembro de 2026, 15 estados e o condado de Harris, no Texas, processaram a FAA. Eles contestam uma conclusão ambiental de alcance nacional, de 28 de julho, que permite à FAA aprovar entregas por drone em novos mercados sem uma avaliação separada para cada um. Com ela, documentos como a versão preliminar de Baton Rouge podem simplesmente deixar de ser escritos. Os autores da ação não pediram que ela fosse suspensa enquanto o processo corre, então novos mercados continuam sendo aprovados.

A lei americana nunca definiu de quem é o céu logo acima de um telhado particular. Ison acha que quem vai decidir são os tribunais.

Um milhão de entregas por dia

Os planos crescem mais rápido do que as disputas se resolvem. Segundo a IEEE Spectrum, a Amazon já entrega por drone em cerca de 85 municípios americanos e promete quase 500 até o fim de 2026, seis vezes mais em poucos meses. A Wing aposta em 270 hubs nos EUA até o fim de 2027. Uber e Zipline miram um milhão de entregas por drone por dia até o fim de 2029.

Ison observa que as pessoas aceitam o barulho mais facilmente quando entendem para que ele serve. “É um argumento bem mais fácil de defender quando você diz que está levando sangue para o local de um acidente do que quando está entregando um fidget toy”, disse ele. Os drones sobre a rua de Cristina Boone levam encomendas comuns, ou seja, os fidget toys. Essa diferença é justamente o que uma média de 24 horas não consegue ouvir.