// Sumário

A Sabi, uma startup da Califórnia, diz que consegue colocar num boné comum 100.000 sensores que captam a atividade elétrica do cérebro. A ideia é que o boné leia as palavras que você diz mentalmente, em silêncio, direto através do cabelo, e as digite na tela. Vamos dar à empresa todo o benefício da dúvida: pegue o menor tamanho de sensor citado no próprio comunicado dela, 1 mm, e encoste os sensores uns nos outros, sem folga nenhuma. Cem mil desses quadradinhos cobrem 1.000 centímetros quadrados. Isso dá mais ou menos duas cabeças.

E duas cabeças é o melhor cenário, pela nossa própria conta. Dominic Borkelmans, editor-chefe da Neurofounders, publicação especializada em neurotecnologia, fez a mesma comparação e chegou a um resultado mais duro. Em 28 de outubro de 2026, ele publicou uma investigação sobre a Sabi. Pelas contas dele, o couro cabeludo de um adulto oferece uns 500 cm². Com o espaçamento que um aparelho de verdade exige, os sensores ocupariam cerca de 4.000 cm². Oito cabeças para um boné só.

Três semanas antes, a Sabi tinha captado uma rodada seed de US$ 50 milhões. A Khosla Ventures liderou o aporte e, segundo a Forbes, a rodada avaliou a empresa em US$ 600 milhões. Ninguém de fora testou o boné, e nenhum artigo científico o descreve: tudo o que se sabe sobre o desempenho dele vem da própria Sabi. E os dados usados para treinar um boné que lê pensamentos através do cabelo vieram de voluntários de cabeça raspada.

Cinco milímetros de cabelo

A Sabi saiu do modo stealth em 16 de abril de 2026. Na época, exibiu uma touca de tricô com 70.000 a 100.000 sensores em miniatura e prometeu digitação pelo pensamento a cerca de 30 palavras por minuto, com entregas até o fim do ano (New Atlas). No outono do hemisfério norte, a touca já tinha virado boné. Segundo um comunicado à imprensa de 9 de outubro, os sensores medem de 1 a 5 mm, dispensam gel e nunca tocam a pele. Eles captam sinais a até 5 mm de distância, direto através do cabelo. Quem decodifica é uma rede neural que a empresa chama de “Brain Foundation Model”; a Sabi diz que ela foi treinada com mais de 100.000 horas de gravações rotuladas.

A eletroencefalografia, ou EEG, registra ondulações elétricas fracas na superfície da cabeça, do tipo que surge quando milhões de neurônios disparam juntos. No caminho para fora, o sinal atravessa as membranas que envolvem o cérebro, o crânio e a pele, e sai bem borrado. É como ouvir os vizinhos pela parede do apartamento: dá para saber que estão brigando, mas não dá para entender uma palavra sequer.

A aposta da Sabi é que uma grade de sensores densa o bastante consegue devolver o foco à imagem. Numa entrevista em abril, o CEO Rahul Chhabra chamou isso de “lei de escala espacial da decodificação neural”. Para comparação: os sistemas de EEG de pesquisa mais densos param em torno de 1.024 sensores.

Os investidores compraram outro argumento. “Não dá para fazer um bilhão de cirurgias cerebrais para substituir um bilhão de teclados”, disse Vinod Khosla, fundador do fundo, no comunicado. Accel, DST Global e Kevin Weil, ex-diretor de produto da OpenAI, também entraram com dinheiro.

Cabeças raspadas em Bangalore

A investigação também vasculha o passado da empresa. A antecessora, Neuralace, foi registrada em Delaware em 9 de maio de 2024 e, em julho daquele ano, a coleta de dados passou para Bangalore, na Índia. Anúncios numa plataforma local de bicos procuravam homens de 25 a 35 anos que falassem inglês para sessões de gravação de EEG. Os voluntários faziam tarefas com vídeo, áudio e texto e podiam ganhar até 42.000 rúpias por mês, cerca de 400 euros. Uma das exigências: cabeça raspada.

Chhabra contou à Forbes que a empresa contratou mais de 100 prestadores de serviço assim. Ou seja, um boné feito para funcionar através do cabelo foi treinado em cabeças sem um fio sequer. Os anúncios não explicam o porquê da máquina zero. Uma explicação plausível é um sinal mais limpo para o treino. Se for isso, fica a pergunta de como o modelo se sai justamente diante daquilo que é a razão de ser do projeto: uma cabeça comum, com cabelo.

Um boné feito para cabelo foi treinado em cabeças raspadas
Um boné feito para cabelo foi treinado em cabeças raspadas

Os números também mudavam de uma aparição pública para outra.

// Linha do tempo

  1. A Neuralace, futura Sabi, é registrada em Delaware.
  2. Lançamento: uma touca, 70.000–100.000 sensores, 100.000 horas de gravações de cerca de 100 voluntários, meta de precisão acima de 90%.
  3. A Khosla Ventures mostra um slide falando em 1 milhão de horas de dados de EEG.
  4. A Sabi capta US$ 50 milhões. A touca vira boné, os dados voltam a 100.000 horas, a precisão é de “até 77%” e o lançamento fica para 2027, com demonstração de protótipo na CES.
  5. Sai a investigação da Neurofounders. Chhabra chama o milhão de horas de “uma especificação de produto aspiracional”.

O que o EEG consegue de verdade

A melhor referência publicada vem de um laboratório da Meta. Em fevereiro de 2025, os pesquisadores descreveram um experimento com 35 voluntários saudáveis. Eles digitavam frases curtas decoradas num teclado comum enquanto uma rede neural tentava descobrir, pela atividade cerebral, que letras estavam digitando. Com EEG, ela errou em média 67% dos caracteres: duas letras em cada três. Um scanner magnético volumoso, numa sala blindada, foi melhor e ainda assim errou cerca de uma letra em cada três.

Há um detalhe que passa despercebido com facilidade. Os voluntários estavam de fato apertando teclas, então o modelo podia se apoiar nos sinais que o cérebro usa para mover os dedos. A Sabi promete ler palavras que a pessoa nem digita nem fala.

Até agora, só eletrodos dentro do crânio decodificaram fala interior. Em agosto de 2025, uma equipe de Stanford relatou ter decodificado frases que quatro pessoas com paralisia diziam em silêncio, na cabeça, com até 74% de precisão. As quatro tinham microeletrodos implantados no córtex motor. O implante da Neuralink chega a 75 palavras por minuto, mas decodifica tentativas de falar, não pensamento silencioso.

Diante disso, em abril a Sabi falava em 30 palavras por minuto “com precisão razoável”. Em outubro, Chhabra enfim deu um número, segundo a Forbes, citada na investigação da Neurofounders. Segundo ele, um protótipo inicial, parecido com um capacete, decodifica pensamentos com “até 77%” de precisão em quem treinou com ele por mais de duas semanas. Não explicou se eram palavras, letras ou comandos. Borkelmans fez a mesma pergunta e ficou sem resposta.

// A promessa e o que se sabe

O que a Sabi promete

  • 100.000 sensores num só boné.
  • Ler pensamentos que ninguém diz em voz alta.
  • Funcionar através do cabelo.
  • Precisão de “até 77%”.

O que se sabe

  • Mesmo os sistemas de EEG mais densos têm uns 1.024 sensores.
  • No estudo da Meta, o EEG errou duas letras em cada três mesmo com as pessoas digitando num teclado.
  • Os dados de treino vieram de cabeças raspadas.
  • A Sabi não diz o que a precisão mede.

Oito milhões de visualizações

O próprio lançamento teve algo de estranho. No post em que Chhabra anunciou o lançamento, em abril, Borkelmans contou 52 comentários incomuns de 50 contas. Muitos se repetiam palavra por palavra. Um dizia apenas “Done.”

A Atomik Growth, agência que cuidou da campanha de lançamento, afirmou num estudo de caso ter passado de 8 milhões de visualizações. A mesma agência ofereceu a um conhecido de Borkelmans US$ 750 para compartilhar o lançamento com um comentário e US$ 1.000 por um post próprio. Ele recusou. Depois, o estudo de caso sumiu do site da agência.

Comentários idênticos sob o post de lançamento
Comentários idênticos sob o post de lançamento

A investigação nunca usa a palavra “fraude”. Borkelmans não afirma que o boné não funciona. Ele mostra que, por enquanto, ninguém consegue verificar nada disso e que os números se contradizem. Antes de publicar, enviou a Chhabra perguntas sobre a equipe, os dados, os protótipos e a precisão. Chhabra respondeu sobre o milhão de horas, prometeu detalhes técnicos “nas próximas semanas e na CES” e não ofereceu nada concreto.

Quando o boné começa a escutar

Mesmo que o boné funcione, sobra uma pergunta que as startups preferem pular: quando ele começa a ler? No estudo de Stanford, o sistema captou números enquanto os participantes contavam em silêncio círculos cor-de-rosa numa tela, mesmo sem ninguém ter pedido que dissessem alguma coisa. Por isso os pesquisadores protegeram a decodificação com uma senha: ela só era ativada depois que a pessoa dizia em silêncio “chitty chitty bang bang”. O sistema reconhecia essa frase em mais de 98% dos casos.

Em abril, Chhabra descartou a senha mental como inviável para um produto de consumo. O boné, disse ele, vai perceber sozinho quando alguém quer dizer alguma coisa. A Sabi também promete que os dados são criptografados já no sensor e processados ainda criptografados, de modo que ninguém, “nem mesmo a nossa equipe”, consiga ver o que quem usa o boné está pensando. Isso também não dá para verificar.

O primeiro teste de verdade foi marcado pela própria empresa: a Sabi diz que vai mostrar um protótipo na CES, em Las Vegas, em janeiro de 2027. A prova seria assim: alguém com um corte de cabelo comum coloca o boné, pula as duas semanas de treino, e ele digita um pensamento, não um texto batido no teclado. A precisão deveria ser informada em letras ou palavras, e não como “até 77%” de algo sem nome, e alguém de fora da empresa deveria medi-la. Uma demonstração caprichada no palco não resolve nada disso. Borkelmans fecha a investigação perguntando se um produto assim pode sequer existir. E acrescenta: “Adoraria que provassem que estou errado.”