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Em 9 de outubro de 2026, quase US$ 5 milhões saíram de três endereços de bitcoin de uma só vez. O dinheiro estava guardado em carteiras de hardware da Ledger , aparelhos que existem para uma única coisa: impedir que as chaves de criptomoedas encostem na internet. Ele provavelmente saiu por um chip de SIM que alguém escondeu dentro da carcaça.

O mais estranho nem é o valor. O dono do dinheiro era, ele mesmo, um golpista. A empresa de análise de blockchain Chainalysis apontou-o como uma das maiores vítimas da onda de roubos e rastreou a origem dos seus 60 bitcoins. Ele pagava pessoas para escreverem avaliações falsas e, antes de repassar o que elas tinham ganhado, exigia uma taxa. Em 22 de setembro, transferiu o lucro para três endereços Ledger. Em 9 de outubro, outra pessoa levou tudo.

A Chainalysis não diz onde o golpista comprou os aparelhos. Mas, naquele mesmo dia, a Ledger abriu uma investigação sobre perdas relatadas por compradores no Sudeste Asiático. Em 10 de outubro, a empresa confirmou que a carteira de uma vítima continha um implante estranho e, no dia 13, explicou exatamente o que encontrou: um microcontrolador extra e um modem celular com eSIM, um chip de SIM soldado direto na placa. Um aparelho feito para viver offline estava, em silêncio, ficando online e enviando as próprias chaves.

Vinte e quatro palavras na tela

Uma carteira de hardware parece um pen drive com uma telinha e dois botões. Dentro dela há um chip seguro que guarda a chave secreta e assina as transferências por conta própria. O notebook ou o celular só entrega uma transação pronta e recebe de volta a versão assinada. A chave nunca sai do chip, então um malware no computador não consegue alcançá-la.

O esquema tem uma saída de emergência da qual não pode abrir mão. Carteiras se perdem ou se quebram. Para esse caso, na primeira configuração o aparelho mostra 24 palavras na tela, e o dono as copia no papel.

O segredo-mestre de uma carteira só fica visível em texto aberto em raros momentos. Na maioria das vezes é a primeira configuração, quando as palavras aparecem na tela, e mais raramente a recuperação, quando elas são digitadas de volta. O ataque foi montado em torno do primeiro desses momentos.

Um celular dentro da carteira

Em 13 de outubro, a equipe de segurança da Ledger, a Ledger Donjon, descreveu como o implante funciona. Um microcontrolador dentro da carcaça observa o que aparece no visor, decodifica as palavras da semente e as envia por LTE, a internet móvel comum, como num celular. Ele não mexe no chip seguro nem no firmware e não altera transações nem assinaturas. A carteira não percebe nada. Continua guardando fielmente a sua chave, enquanto as 24 palavras que a reconstroem já estão há muito tempo em mãos alheias.

É por isso que a verificação oficial de autenticidade é inútil nesse caso. Segundo a Ledger, o recurso Genuine Check não detecta componentes adicionados enquanto o chip seguro original estiver no lugar. Ele verifica o chip. Não os vizinhos dele.

Não eram amadores. Na primeira variante, pesquisadores da Tibane Labs encontraram um microcontrolador STM32, um eSIM de 2 por 2 milímetros e um módulo de rádio blindado. Para abrir espaço, a bateria original tinha sido trocada por uma menor, que alimentava tanto a carteira quanto o “espião”. Na segunda variante, as marcações do chip tinham sido raspadas, e a placa estava escondida sob o visor, onde normalmente fica uma almofada de espuma. Era uma placa flexível feita em lotes, em escala de fábrica, e não algo soldado à mão na mesa da cozinha.

A placa flexível do implante ficava sob a tela, onde deveria haver uma almofada de espuma
A placa flexível do implante ficava sob a tela, onde deveria haver uma almofada de espuma

Uma loja com a placa certa na porta

A Ledger liga todas as perdas confirmadas a um único vendedor, a CryptoBilis, uma varejista da Malásia. Não era um revendedor qualquer de feira: até 9 de outubro, ela constava como revendedora oficial da Ledger na Indonésia, na Malásia e nas Filipinas. A investigação ainda não estabeleceu quem abriu as caixas nem onde, no caminho entre a fábrica e o cliente ou num depósito.

Mas a história não ficou na Ásia. Na Alemanha, um cliente comum comprou uma carteira na MediaMarkt, uma grande rede de eletrônicos de consumo, e encontrou um “espião” dentro. Ele não perdeu dinheiro, e a rede retirou a Ledger das lojas e do site. Mark Karpelès, ex-chefe da corretora Mt. Gox, escreveu que encontrou um implante numa Ledger Flex comprada numa loja do aeroporto de Singapura, embora a Ledger não tenha confirmado ligação entre esse aparelho e a CryptoBilis. A própria Ledger pediu a vendedores de seis países do Sudeste Asiático e de Hong Kong que tirassem as carteiras das prateleiras até que as verificações terminem.

Ninguém sabe quanto foi roubado no total. Pela contagem de pesquisadores que atuam sob os nomes tanuki42 e Specter, entre US$ 72 milhões e mais de US$ 86 milhões foram para endereços suspeitos. A Ledger diz com todas as letras que esses números vêm de terceiros e que ela não os verificou. A Tether emite dólares digitais, as chamadas stablecoins, e pode congelar as próprias moedas que estejam em endereços alheios. Ela congelou US$ 10 milhões ligados ao roubo. Até agora, essa é a única quantia identificada que alguém conseguiu barrar pelo caminho.

Uma chave que não dá para trocar

Na Ledger, a verificação de autenticidade deixou passar uma placa de circuito extra. Na Keystone, outra fabricante de carteiras de hardware, os ladrões roubaram a própria chave por trás dessa verificação. Em 20 de outubro, um invasor entrou no site da empresa por uma falha numa ferramenta de monitoramento de dados de terceiros. A Keystone informou que foram expostos dados de quase 26 mil compradores entre 2024 e 2026: nomes, dados de contato, endereços de entrega e conteúdo dos pedidos. As frases-semente e as chaves das carteiras, diz a empresa, não foram afetadas.

Uma lista de endereços residenciais de quem comprou um aparelho para guardar criptomoedas já é perigosa por si só. Na França, assaltantes já aparecem na casa dessas pessoas , e é justamente em bancos de dados vazados assim que eles buscam pistas. Parte dos registros nem deveria existir. Pela política da própria Keystone, eles deveriam ser apagados depois de 180 dias, mas a ferramenta automática de exclusão quebrou. Ninguém percebeu. “Não cumprimos nosso compromisso de apagar os dados dos clientes a tempo e assumimos a responsabilidade por essa falha”, escreveu a empresa.

A segunda perda é pior. O invasor também levou uma chave embutida de fábrica em cada aparelho para que ele possa provar que é genuíno numa verificação on-line. Essa chave não pode ser trocada nas carteiras já produzidas. Ou seja, uma falsificação que a carregue passaria justamente na verificação criada para flagrá-la.

A Keystone decidiu destruir 18.835 aparelhos não vendidos, suspendeu os envios e passou a loja virtual para pré-venda. Carteiras entregues antes de 20 de outubro são seguras para usar se passarem na autenticação, diz a empresa. Quem recebeu uma carteira depois dessa data deve primeiro submetê-la a uma verificação adicional. A Keystone também avisa que nunca enviará mensagens pedindo que os clientes devolvam um aparelho ou migrem seus fundos: mensagens assim vêm de golpistas.

Uma cadeia em que é preciso confiar

Os fabricantes reagem de maneiras diferentes. A Trezor não encontrou aparelhos adulterados entre os seus, mas, a partir de 1º de janeiro de 2027, vai reduzir a rede de revendedores, e algumas lojas perderão o direito de vender suas carteiras. A OneKey cortou a CryptoBilis como parceira e está substituindo gratuitamente as carteiras da própria marca compradas lá entre 1º de março e 13 de outubro de 2026.

A Ledger aconselha não configurar de jeito nenhum os aparelhos da CryptoBilis. Quem já os tem deve transferir os fundos para uma carteira nova, com uma nova frase-semente, e jamais digitar as palavras antigas num aparelho suspeito. A Ledger diz que seus servidores e suas vendas diretas não foram comprometidos, e até agora nada contradiz isso. Daí a lição mais prática: o caminho mais seguro é comprar direto do fabricante e nunca configurar uma carteira de origem duvidosa.

Muita coisa ainda é desconhecida. O número de vítimas não foi divulgado, e quem soldou as placas não foi encontrado. Também não está claro até onde as unidades adulteradas se espalharam além de um único vendedor.

Changpeng Zhao, cofundador da Binance, escreveu no dia dos primeiros relatos que a autocustódia traz responsabilidades extras. Mas os clientes da CryptoBilis tinham comprado suas carteiras de um vendedor oficial, e nenhum cuidado teria permitido enxergar uma placa escondida sob a tela.

A carteira de hardware prometia ao dono que ele não precisaria mais confiar numa corretora ou num banco. Outubro mostrou que a confiança não desapareceu, apenas mudou de lugar: agora é preciso confiar na fábrica, no depósito, na loja e no entregador que segurou a caixa antes de você.