// Sumário
Na semana do Halloween, a Uber registrou 320 milhões de corridas e pedidos de comida. Os agentes de IA responderam por cerca de 500 entregas e quatro corridas. Não são quatro mil nem quatro por cento. Quatro carros que alguém chamou pedindo a um chatbot em vez de tocar no app.
O número apareceu em 4 de novembro de 2026, na teleconferência de resultados do terceiro trimestre da Uber. O analista Doug Anmuth, do JPMorgan, perguntou sobre agentes de IA. No meio da resposta, o CEO Dara Khosrowshahi se virou para o próprio diretor financeiro, Balaji Krishnamurthy, e quis saber como estavam os volumes naquele momento. No Uber Eats, os agentes tinham gerado “500 pedidos no total”, disse Krishnamurthy. E nas corridas, “um total de incríveis 4 viagens”. Khosrowshahi resumiu: “tração muito, muito inicial e muito limitada”.

E nem era uma semana parada. Krishnamurthy a chamou de uma das maiores da empresa, justamente por causa do Halloween. Na conta, é uma corrida via agente para cada 80 milhões de corridas e pedidos.
// O que o agente precisa superar
Cinquenta segundos sem gordura para cortar
Na mesma teleconferência, Khosrowshahi explicou por que os números são tão pequenos. Chamar uma corrida no app da Uber leva, em média, 50 segundos. No Uber Eats, metade dos pedidos repetidos de um prato favorito sai em menos de 90 segundos. Um agente só vale a pena se for mais rápido que isso, e essa barra é alta. Você digita ou dita o pedido, espera o modelo raciocinar e ainda precisa conferir se ele pegou o endereço certo.
E os agentes ainda são lentos. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego mediram como sistemas de IA se viram com um computador. Tarefas que uma pessoa resolve em poucos minutos levavam dezenas de minutos para os agentes, e o modelo passou quase todo esse tempo pensando: planejando os passos e revisando o próprio trabalho. O estudo trata de tarefas no computador, não de táxi, mas o recado é claro. Quando o agente termina de deliberar, quem usa o app já está dentro do carro.
O táxi é o pior cenário para um agente. Você precisa do carro agora, está na calçada com o celular já na mão, e o app sabe onde você está e mostra o preço no mapa. Não há o que delegar. A comida deixa mais espaço para escolha: o que comer, de onde, para quantas pessoas. Provavelmente é por isso que os agentes fizeram 125 vezes mais pedidos de entrega do que corridas, embora até isso caiba num erro de arredondamento. Essa parte, vale dizer, é palpite: a Uber não explicou a diferença nem disse quais agentes contou ou como.

A DoorDash também está na casa das centenas
A Uber não está sozinha. Uma semana antes, na teleconferência de 29 de outubro, o CEO da DoorDash, Tony Xu, admitiu que agentes de terceiros como Muse, Instinct e Fo tinham enviado “talvez várias centenas de pedidos no total”. Para comparar: em 2025, a DoorDash fez em média 3 milhões de entregas por dia. Xu definiu sua postura assim: “Você nunca vai querer brigar com a gravidade. Mas, ao mesmo tempo, também não quer viver iludido.”
O curioso é que as pessoas gostam, sim, de usar agentes. O agente Muse, da Meta, sobre o qual escrevemos em outubro, conquistou mais de 10 milhões de usuários desde o lançamento em setembro, e fazer compras é o pedido mais comum. Parece que as pessoas entregam ao agente aquele tipo de tarefa que comeria uma noite inteira: comparar fones de ouvido, caçar um presente, encher um carrinho com dez itens diferentes. Jantar e corrida são outra história. São ações curtas e repetitivas, que os apps há muito tempo reduziram a dois toques.
O assistente da casa leva a melhor
A IA da própria empresa traz pedidos maiores. Khosrowshahi disse que os primeiros dados mostram que carrinhos montados com o assistente no app de entregas da Uber saem cerca de duas vezes maiores que a média. A Amazon exibiu números de outra escala na teleconferência de 29 de outubro: o CEO Andy Jassy disse que mais de 400 milhões de clientes usaram o assistente Alexa for Shopping no último ano. Nos EUA, quem o usa gasta 50% a mais por pedido do que quem não usa. Nos dois casos, porém, os números comparam quem usa com todo o resto; ninguém fez um experimento. Pode ser só que quem gasta muito seja mais rápido em testar novidades.
Jassy disse com todas as letras que o Alexa for Shopping será o principal agente que as pessoas vão usar para comprar na Amazon. Khosrowshahi foi mais diplomático: todas as empresas de IA estão conversando com a Uber, mas, na visão dele, os serviços da própria empresa vão continuar sendo os mais fáceis de usar.
Não é difícil entender o motivo. O assistente da casa mantém o cliente no território da empresa: vê os pedidos dele e pode lhe mostrar anúncios. Um agente de fora rebaixa o serviço a terceirizado. O pedido chega de uma janela de chat, e o cliente continua sendo de quem fez o chat. Xu já se pergunta se a DoorDash poderia anunciar dentro dos próprios agentes.
Para o cliente, tudo se resume a confiança. Se a publicidade entrar nos agentes, a “melhor opção” de jantar sugerida por um bot pode acabar sendo um anúncio pago. E o assistente da Amazon ou da Uber só vai mostrar o que aquela empresa vende. No fundo, as empresas disputam em qual conselheiro você vai confiar.
Por enquanto, os agentes de fora trazem tão poucos pedidos que dá para contar nos dedos. Khosrowshahi, segundo o TechCrunch, encerrou o assunto sem muito otimismo: “Olha, esperamos que haja mais tração.” Mesmo assim, os números já dão uma pista de onde o agente faz sentido. As pessoas entregam de bom grado a um bot a caça a fones e presentes, mas o carro ainda chamam por conta própria, paradas na calçada com o celular na mão. O agente se paga onde dá preguiça de pensar, não onde dá preguiça de tocar na tela.







